Anvisa abre caminho para medicamentos em marketplaces

Anvisa abre caminho para medicamentos em marketplaces

Sumário

A Anvisa abriu caminho para que farmácias e drogarias licenciadas utilizem marketplaces e plataformas digitais para comercializar e entregar medicamentos aos consumidores. A mudança, publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em agosto de 2026, envolve plataformas como iFood, Rappi, Mercado Livre, Americanas, Submarino e Shopee.

No entanto, apesar de representar uma mudança importante para o comércio eletrônico brasileiro, a decisão precisa ser interpretada com cuidado. A Anvisa não autorizou automaticamente os marketplaces a vender medicamentos por conta própria. A agência revogou medidas que impediam a comercialização e a propaganda desses produtos nessas plataformas, mas afirmou que a operação ainda depende de regulamentação específica.

A mudança acontece após a entrada em vigor da Lei nº 15.357/2026, que passou a permitir que farmácias e drogarias regularmente licenciadas contratem canais digitais e plataformas de comércio eletrônico para atividades relacionadas à logística e à entrega de medicamentos. Agora, o mercado aguarda as regras que deverão detalhar como esse modelo poderá funcionar na prática.

O que mudou na venda de medicamentos

Durante anos, a comercialização de medicamentos pela internet esteve sujeita a regras bastante restritivas.

A própria Anvisa já estabelecia que medicamentos poderiam ser vendidos pela internet por farmácias ou drogarias fisicamente estabelecidas, enquanto determinados medicamentos controlados não poderiam ser comercializados dessa maneira.

Agora, entretanto, o cenário começa a mudar.

Com a nova legislação, farmácias e drogarias licenciadas podem utilizar canais digitais e plataformas de comércio eletrônico para ampliar seus meios de venda, logística e entrega.

Consequentemente, marketplaces passam a ocupar uma posição diferente dentro da cadeia.

Eles não necessariamente serão responsáveis pelo armazenamento ou pela dispensação dos medicamentos. Em vez disso, poderão funcionar como uma ponte digital entre o consumidor e uma farmácia regularmente autorizada.

Essa diferença é fundamental para entender a decisão.

Marketplaces entram no ecossistema farmacêutico

A entrada de plataformas como Mercado Livre, Shopee, iFood e Rappi nesse mercado representa uma aproximação entre dois setores que já vinham se conectando: farmácias e comércio eletrônico.

O consumidor já está acostumado a utilizar aplicativos para comprar alimentos, produtos de beleza, eletrônicos e itens para casa.

Agora, medicamentos também podem entrar nessa jornada digital.

Na prática, o consumidor poderá encontrar uma farmácia participante dentro de uma plataforma que já utiliza no dia a dia, selecionar um produto e receber o pedido por meio de uma estrutura integrada.

Porém, a operação deverá respeitar as regras sanitárias estabelecidas pela Anvisa.

A agência deixou claro que a revogação das medidas preventivas não significa que as plataformas estejam livres de cumprir a legislação.

A Anvisa faz uma ressalva importante

Apesar do título de “liberação” ter ganhado espaço nas notícias sobre a decisão, existe uma ressalva importante.

A própria Anvisa afirma que a revogação das resoluções não implica autorização automática para comercialização de medicamentos nas plataformas.

Segundo a agência, a aplicação do dispositivo incluído pela Lei nº 15.357/2026 ainda está condicionada à regulamentação específica que será editada pelo órgão.

Portanto, o mercado está diante de uma abertura regulatória, mas ainda não de um modelo totalmente definido.

Essa regulamentação será importante para estabelecer responsabilidades, procedimentos e limites para a operação.

Farmácias continuam responsáveis pelos medicamentos

Um dos pontos centrais da mudança é que a responsabilidade sanitária não desaparece com a entrada das plataformas digitais.

A farmácia ou drogaria continua sendo uma parte essencial da operação.

Isso significa que questões como armazenamento, conservação, dispensação e orientação farmacêutica precisam continuar seguindo as normas sanitárias.

A própria cobertura sobre a decisão destaca que a armazenagem e a dispensação permanecem vinculadas às farmácias, sob responsabilidade profissional.

Dessa maneira, o marketplace não substitui a farmácia.

Ele amplia o canal pelo qual o consumidor pode chegar até ela.

O consumidor ganha mais opções

Para o consumidor, a principal mudança potencial está na conveniência.

Hoje, muitas pessoas já utilizam aplicativos para resolver diferentes necessidades do cotidiano.

Ao incorporar medicamentos a essas plataformas, a jornada de compra pode ficar mais integrada.

Por exemplo, uma pessoa pode utilizar um aplicativo para comprar produtos de higiene, itens de cuidados pessoais e medicamentos de uma farmácia participante.

Além disso, plataformas com forte presença em logística podem facilitar a entrega.

Consequentemente, a disponibilidade de medicamentos em canais digitais pode aumentar a conveniência para consumidores que já possuem o hábito de comprar pela internet.

A logística se torna ainda mais importante

A mudança também interessa diretamente ao setor de logística.

Medicamentos possuem características diferentes de outros produtos vendidos no e-commerce.

Dependendo do produto, podem existir exigências relacionadas à temperatura, armazenamento, transporte e prazo.

Por isso, não basta colocar um medicamento em um catálogo digital.

É necessário garantir que toda a operação respeite os requisitos sanitários.

Nesse cenário, plataformas digitais precisarão trabalhar em conjunto com farmácias e empresas de logística para estruturar processos seguros.

Além disso, a rastreabilidade deverá ganhar ainda mais importância.

A disputa pelo consumidor farmacêutico pode crescer

A possibilidade de utilizar grandes marketplaces também pode aumentar a competição no setor farmacêutico.

Farmácias que antes dependiam principalmente de lojas próprias, aplicativos próprios ou sites podem ganhar novos canais de aquisição.

Isso significa que uma pequena ou média rede de farmácias poderá, dependendo das regras e das condições comerciais, alcançar consumidores dentro de plataformas com milhões de usuários.

Consequentemente, a descoberta de produtos pode mudar.

O consumidor não precisará necessariamente entrar diretamente no aplicativo de uma rede farmacêutica para pesquisar um medicamento.

Ele poderá encontrar a oferta dentro de uma plataforma de comércio eletrônico que já utiliza para outras categorias.

Mercado Livre, Shopee, iFood e Rappi entram em um novo cenário

As plataformas envolvidas também podem ganhar novas oportunidades.

O Mercado Livre, por exemplo, já possui uma ampla infraestrutura de comércio eletrônico e logística no Brasil. A empresa, inclusive, já possui histórico de interação com a Anvisa para combater anúncios irregulares relacionados a produtos de saúde. Em março de 2026, a agência realizou uma fiscalização em um centro logístico da companhia em Cajamar, São Paulo, encontrando produtos sem regularização sanitária e anúncios fora das regras.

Agora, com a mudança regulatória, o desafio passa a ser construir uma operação regularizada para medicamentos.

A Shopee também já teve uma medida preventiva revogada pela Anvisa em 6 de agosto, abrindo caminho para que farmácias utilizem a plataforma, desde que observadas as regras aplicáveis.

Já iFood e Rappi possuem uma característica adicional: suas operações já estão fortemente associadas à entrega rápida.

Isso pode fazer com que medicamentos sejam incorporados a uma experiência de compra baseada em conveniência e velocidade.

Entrega rápida pode mudar a experiência

A possibilidade de combinar farmácias com plataformas de delivery também pode transformar a percepção sobre a compra de medicamentos.

Hoje, um consumidor pode precisar procurar uma farmácia, verificar se o produto está disponível e se deslocar até o estabelecimento.

Com a integração digital, esse processo pode acontecer pelo celular.

Além disso, dependendo da localização e das condições da operação, a entrega pode ser feita em pouco tempo.

Entretanto, a velocidade não pode comprometer a segurança.

Medicamentos exigem cuidados específicos, e a logística precisa respeitar as condições determinadas para cada produto.

Portanto, o desafio será encontrar um equilíbrio entre conveniência, velocidade e segurança sanitária.

A confiança será um dos maiores desafios

A mudança regulatória acontece justamente em um momento em que consumidores demonstram preocupação com a compra de medicamentos pela internet.

Uma pesquisa do Instituto QualiBest, encomendada pela Abrafarma e divulgada em agosto de 2026, mostrou que 69% dos entrevistados apontam o risco de falsificação como principal receio ao comprar medicamentos online. Além disso, 59% demonstraram preocupação com produtos vencidos ou mal armazenados, enquanto 54% citaram medicamentos sem registro na Anvisa.

Os dados mostram que conveniência não é suficiente.

O consumidor também quer segurança.

Por isso, a credibilidade das farmácias e a fiscalização das plataformas serão fundamentais para a expansão desse modelo.

Plataformas terão responsabilidade maior

Outro dado relevante da mesma pesquisa é que 85% dos entrevistados defendem que as plataformas sejam responsabilizadas por medicamentos falsificados, enquanto 82% acreditam que a venda online deveria estar associada a farmácias autorizadas.

Isso demonstra uma expectativa clara do consumidor.

As plataformas podem ganhar espaço na venda digital de medicamentos, mas também deverão lidar com uma responsabilidade maior na identificação de vendedores e produtos.

Dessa forma, mecanismos de controle, verificação e retirada de anúncios irregulares tendem a se tornar ainda mais importantes.

O risco dos produtos irregulares

A preocupação não é apenas teórica.

A Anvisa continua realizando operações para retirar medicamentos e produtos de saúde irregulares do mercado.

Em julho de 2026, por exemplo, a agência proibiu a venda, fabricação, distribuição, divulgação e uso de medicamentos sem registro ou notificação sanitária.

Além disso, em junho, a agência proibiu o funcionamento de uma plataforma que oferecia tratamentos e avaliações relacionadas à obesidade sem a autorização necessária. Na ocasião, a Anvisa destacou que plataformas que indicam medicamentos e dosagens podem se enquadrar como software médico e que empresas não regularizadas como farmácias ou drogarias não podem comercializar medicamentos.

Portanto, a expansão do comércio digital de medicamentos deverá acontecer acompanhada de fiscalização.

Oportunidade para o e-commerce brasileiro

Para o comércio eletrônico, a mudança representa uma nova categoria de alto valor agregado.

O mercado farmacêutico movimenta grandes volumes de produtos e possui uma frequência de compra relevante.

Além disso, medicamentos podem ser combinados com outras categorias, como higiene pessoal, beleza, cuidados com a saúde e produtos infantis.

Consequentemente, marketplaces podem ampliar seus catálogos e aumentar a frequência de utilização por parte dos consumidores.

A estratégia também pode fortalecer o conceito de superapp, no qual o usuário consegue resolver diferentes necessidades em um único ambiente digital.

Farmácias podem alcançar novos públicos

Para as farmácias, a vantagem também pode estar na aquisição de clientes.

Uma empresa que possui uma loja física pode utilizar um marketplace para alcançar consumidores que talvez não conhecessem sua operação.

Além disso, a plataforma pode oferecer ferramentas de busca, recomendação e localização.

Isso permite que o consumidor encontre uma farmácia próxima com determinado produto disponível.

Consequentemente, o estoque local pode ganhar uma função ainda mais estratégica.

O estoque físico passa a ser digital

Esse movimento também reforça uma tendência já observada no varejo: transformar lojas físicas em pontos de apoio para o comércio eletrônico.

Uma farmácia não precisa funcionar apenas como local de atendimento presencial.

Ela pode também atuar como ponto de preparação e expedição de pedidos digitais.

Assim, o estoque que está fisicamente próximo ao consumidor pode ser utilizado para atender uma compra feita pelo celular.

Essa integração entre loja física, estoque e plataforma digital pode reduzir prazos e melhorar a experiência.

Regulamentação será decisiva

Apesar do potencial, ainda existe uma etapa fundamental pela frente: a regulamentação específica da Anvisa.

É ela que deverá detalhar como as regras da Lei nº 15.357/2026 serão aplicadas.

Além disso, será necessário definir claramente o papel de cada participante da cadeia.

Quem será responsável pelo anúncio?

Quem deverá verificar o vendedor?

Como será feita a rastreabilidade?

Quais informações deverão aparecer ao consumidor?

Como serão tratados medicamentos que exigem receita?

Essas são algumas das questões que precisam ser respondidas.

Nem todos os medicamentos terão o mesmo tratamento

Outro ponto importante é que a mudança não significa que qualquer tipo de medicamento poderá ser vendido livremente em marketplaces.

Existem categorias sujeitas a controles específicos e exigências relacionadas à prescrição.

A regulamentação deverá deixar claro quais produtos poderão ser disponibilizados e sob quais condições.

Portanto, consumidores e empresas precisarão acompanhar as regras antes de interpretar a mudança como uma autorização ampla.

Uma nova fase para o comércio farmacêutico

A decisão da Anvisa representa uma mudança importante na relação entre farmácias, marketplaces e consumidores.

Ao permitir que farmácias e drogarias licenciadas utilizem canais digitais e plataformas de comércio eletrônico, a legislação abre espaço para um modelo mais integrado.

Entretanto, a agência reforça que a regulamentação sanitária continua sendo obrigatória e que a revogação das medidas preventivas não representa uma autorização automática.

Assim, o mercado entra em uma fase de transição.

As plataformas passam a se preparar para uma possível expansão da categoria, enquanto farmácias podem avaliar novas estratégias de venda e logística.

Ao mesmo tempo, consumidores ganham a expectativa de encontrar medicamentos com mais facilidade no ambiente digital.

O futuro será de integração

A tendência é que a separação entre farmácia física e comércio eletrônico fique cada vez menor.

O consumidor poderá pesquisar pelo celular, encontrar uma farmácia próxima, verificar a disponibilidade do produto e receber a compra em casa.

Além disso, marketplaces poderão utilizar suas estruturas de tecnologia e logística para aproximar consumidores de estabelecimentos autorizados.

Porém, essa transformação só será sustentável se a conveniência vier acompanhada de segurança.

Afinal, medicamentos não são produtos comuns de e-commerce.

Eles exigem controle, responsabilidade profissional e fiscalização.

Por isso, a nova fase que se inicia com a decisão da Anvisa pode representar uma oportunidade relevante para o comércio digital brasileiro, mas também impõe uma responsabilidade proporcionalmente maior às empresas envolvidas.

No fim, o grande avanço não está simplesmente em “vender medicamentos pela internet”.

Está em construir uma operação na qual tecnologia, farmácias, logística e regulamentação trabalhem juntas para que o consumidor tenha mais acesso sem abrir mão da segurança.