O comércio eletrônico mundial está entrando em uma nova fase de crescimento, e os mercados emergentes aparecem cada vez mais no centro dessa transformação. Enquanto economias mais maduras avançam em um ritmo mais moderado, países como Índia, Brasil, Indonésia, Filipinas e Vietnã ganham espaço pela velocidade com que consumidores e empresas migram para o ambiente digital.
Dados recentes mostram que o crescimento do e-commerce tende a se concentrar justamente em mercados que ainda possuem espaço para ampliar a participação das vendas online no varejo. Um levantamento do U.S. International Trade Administration aponta que a Índia deve liderar o desenvolvimento do varejo eletrônico entre 2023 e 2027, com crescimento anual composto de 14,1%. O Brasil aparece logo atrás, com 14,07%, enquanto a média global estimada ficou em 11,16%.
O movimento também aparece em projeções mais recentes. A análise da ECDB para 2026 indica que países com menor participação do comércio eletrônico no varejo apresentam, em média, taxas de crescimento superiores às observadas nos mercados já mais digitalizados.
Índia lidera a corrida
A Índia aparece como um dos principais exemplos de como a digitalização pode acelerar o comércio eletrônico.
O país combina uma população gigantesca com expansão do acesso à internet, crescimento do uso de smartphones e uma infraestrutura de pagamentos digitais bastante desenvolvida. O resultado é um mercado que continua incorporando consumidores ao ambiente online.
Além disso, os pagamentos instantâneos têm papel importante nessa transformação. O sistema UPI, utilizado amplamente no país, facilita transações digitais e contribui para reduzir barreiras durante a compra.
O mercado indiano também apresenta espaço significativo para expansão. Dados recentes da Sensor Tower mostram que a Índia registrou quase 58 bilhões de visitas a sites de e-commerce nos 12 meses analisados, crescimento de 28% em relação ao período anterior.
Assim, o país não cresce apenas porque possui muitos consumidores. Ele também apresenta uma rápida transformação dos hábitos de compra.
Brasil ganha destaque entre os mercados ocidentais
O Brasil aparece como um dos principais destaques desse movimento.
Além de ser o maior mercado de e-commerce da América Latina, o país combina uma população conectada, forte utilização de smartphones e uma infraestrutura de pagamentos digitais que ganhou velocidade nos últimos anos.
O Pix é um dos elementos mais importantes dessa transformação. O sistema de pagamentos instantâneos reduziu etapas no checkout e passou a fazer parte da rotina de consumidores e empresas.
Um levantamento da FTI Consulting aponta que o e-commerce brasileiro cresceu 11,8% em 2024, acima da média global de 8,4%. O mesmo estudo indica que o Pix já representava cerca de 40% das transações de e-commerce analisadas naquele período.
Além disso, o comércio eletrônico brasileiro ainda possui espaço para ampliar sua participação no varejo total.
Isso significa que o crescimento não depende apenas de consumidores que já compram online com frequência. Existe também uma parcela da população que pode aumentar sua participação no comércio digital nos próximos anos.
O consumidor brasileiro está cada vez mais conectado
Outro fator importante é o uso do celular.
No Brasil, o smartphone ocupa uma posição central na jornada de compra. O consumidor pode descobrir um produto nas redes sociais, pesquisar preços em um marketplace, conversar com uma loja e concluir o pagamento pelo próprio aparelho.
Consequentemente, a fronteira entre redes sociais, entretenimento e comércio fica cada vez menor.
A América Latina como um todo apresenta esse comportamento. Segundo dados divulgados pela Endeavor e pelo Mercado Livre, o e-commerce da região deve alcançar US$ 215,31 bilhões em 2026, enquanto as compras online avançam 1,5 vez mais rápido que a média global. O mobile commerce representa 84% das compras analisadas.
Por isso, o Brasil não cresce isoladamente. Ele faz parte de uma transformação regional mais ampla.
Indonésia combina população jovem e smartphones
Na Indonésia, o crescimento do e-commerce está diretamente ligado à expansão da economia digital e à presença de uma população jovem e conectada.
O país possui um enorme mercado consumidor distribuído por milhares de ilhas. Nesse cenário, plataformas digitais conseguem conectar consumidores e vendedores de diferentes regiões.
Além disso, o smartphone se tornou uma das principais portas de entrada para serviços digitais.
A Indonésia também aparece entre os mercados com crescimento acima da média em projeções internacionais. Estimativas compiladas pela Flywheel Retail Insights apontam crescimento anual de 9% para o e-commerce do país entre 2026 e 2029.
Embora o ritmo varie conforme a metodologia e o período analisado, o cenário é consistente: a digitalização ainda possui bastante espaço para avançar no país.
Filipinas apostam no comércio mobile
As Filipinas também aparecem entre os mercados emergentes com forte potencial.
O país possui consumidores altamente conectados e uma forte utilização de dispositivos móveis. Além disso, plataformas digitais e superaplicativos concentram diferentes serviços em uma mesma experiência.
Essa característica pode facilitar a jornada do consumidor.
Em vez de utilizar diferentes aplicativos para comunicação, entretenimento, pagamentos e compras, o usuário encontra cada vez mais funções integradas em um mesmo ecossistema.
Projeções anteriores da FIS indicavam crescimento anual composto de aproximadamente 18% para o e-commerce filipino entre 2022 e 2026.
Já estimativas mais recentes da Flywheel apontam crescimento de 11,3% entre 2026 e 2029.
Isso mostra como diferentes estudos podem apresentar números distintos conforme o período e a metodologia utilizada, mas apontam para a mesma direção: as Filipinas continuam entre os mercados com forte expansão digital.
Vietnã avança com marketplaces e logística
O Vietnã completa o grupo de mercados asiáticos que vêm chamando atenção.
O país apresenta uma população cada vez mais familiarizada com serviços digitais e uma expansão das plataformas de marketplace.
Ao mesmo tempo, a evolução da logística ajuda a reduzir uma das principais barreiras do comércio eletrônico: conseguir entregar produtos com velocidade e previsibilidade.
Esse aspecto é fundamental porque não basta conquistar o consumidor no ambiente digital. A experiência precisa continuar depois do clique em “comprar”.
Estimativas da Flywheel apontam crescimento anual de 8,1% para o e-commerce vietnamita entre 2026 e 2029.
Além disso, projeções anteriores colocavam o crescimento anual composto do mercado em aproximadamente 15% entre 2022 e 2026.
Por que os mercados emergentes crescem mais?
A resposta passa por um conceito importante: maturidade digital.
Em mercados onde grande parte dos consumidores já compra online há muitos anos, o crescimento tende a desacelerar. Isso acontece porque uma parcela relevante da população já foi incorporada ao comércio eletrônico.
Nos mercados emergentes, entretanto, milhões de consumidores ainda estão migrando do varejo tradicional para o digital.
A UNCTAD identificou justamente esse movimento. Entre 2016 e 2024, a taxa média anual de crescimento das vendas de e-commerce das empresas em economias em desenvolvimento foi quase o dobro da observada nas economias desenvolvidas, considerando os países disponíveis na amostra.
Portanto, o crescimento não acontece apenas porque esses países possuem mercados consumidores grandes. Ele acontece também porque a transformação ainda está em andamento.
A infraestrutura também faz diferença
Para que o e-commerce cresça de forma sustentável, entretanto, é necessário muito mais do que consumidores conectados.
Pagamentos, logística, marketplaces, crédito, segurança e atendimento precisam evoluir juntos.
Nesse sentido, cada mercado desenvolveu soluções próprias.
Na Índia, os pagamentos instantâneos ganharam enorme importância. No Brasil, o Pix transformou a experiência de pagamento. Na Ásia, superaplicativos e marketplaces concentram cada vez mais serviços.
Ao mesmo tempo, empresas de logística ampliam sua capacidade para acompanhar o aumento dos pedidos.
Essa combinação cria um ciclo de crescimento.
Mais consumidores entram no ambiente digital → mais empresas passam a vender online → a infraestrutura melhora → a experiência fica mais conveniente → novos consumidores são atraídos.
O tamanho do mercado não conta toda a história
China, Estados Unidos e Europa Ocidental continuam concentrando grande parte das vendas globais. Juntos, esses mercados representam aproximadamente 80,5% das vendas mundiais de e-commerce, segundo dados do The Paypers.
Entretanto, tamanho e velocidade de crescimento são métricas diferentes.
Um mercado maduro pode movimentar centenas de bilhões de dólares e crescer poucos pontos percentuais ao ano. Já um mercado menor pode apresentar crescimento de dois dígitos justamente porque ainda possui uma enorme oportunidade de expansão.
É por isso que os mercados emergentes despertam tanto interesse de empresas globais.
Para marketplaces, marcas, empresas de tecnologia, meios de pagamento e operadores logísticos, esses países representam novas oportunidades de crescimento.
O que isso significa para o e-commerce brasileiro?
Para o Brasil, o cenário é especialmente relevante.
O país já possui uma infraestrutura digital relativamente madura em comparação com outros mercados emergentes. Ao mesmo tempo, ainda existe espaço para aumentar a participação do e-commerce no varejo.
Isso cria uma posição interessante.
O Brasil não precisa necessariamente construir todo o ecossistema do zero. O mercado já conta com grandes marketplaces, sistemas de pagamento instantâneo, operadores logísticos, fintechs e milhões de consumidores digitais.
Agora, o desafio está em continuar aprimorando essa estrutura.
Além disso, a competição tende a aumentar.
Empresas estrangeiras observam o mercado brasileiro justamente porque identificam uma combinação de escala, crescimento e consumidores digitalmente ativos.
O próximo salto pode vir da experiência
O crescimento futuro não dependerá somente de colocar mais consumidores na internet.
A próxima etapa envolve melhorar a experiência.
Entrega mais rápida, checkout simples, pagamentos flexíveis, atendimento eficiente, personalização e integração entre canais podem fazer diferença na decisão de compra.
Além disso, tecnologias como inteligência artificial podem ajudar empresas a compreender melhor o comportamento dos consumidores e automatizar parte das operações.
No entanto, infraestrutura continua sendo fundamental.
A tecnologia pode melhorar a experiência, mas o consumidor ainda espera receber o produto no prazo, pagar com segurança e resolver problemas rapidamente quando algo dá errado.
O e-commerce global está mudando de centro de gravidade
O crescimento dos mercados emergentes não significa que os grandes mercados tradicionais perderão sua importância.
China, Estados Unidos e Europa continuarão movimentando a maior parte das vendas online.
Porém, a velocidade de expansão está cada vez mais concentrada em países que ainda possuem espaço para digitalizar consumidores, empresas e processos.
Índia, Brasil, Indonésia, Filipinas e Vietnã representam diferentes versões desse fenômeno.
Cada um possui suas particularidades, mas todos compartilham uma característica: o comércio eletrônico ainda tem muito espaço para avançar.
Para o Brasil, a posição é particularmente estratégica. O país já possui uma base digital relevante e, ao mesmo tempo, continua apresentando crescimento acima da média global em diferentes levantamentos.
Por isso, o próximo capítulo do e-commerce brasileiro pode não ser apenas sobre conquistar mais consumidores.
Pode ser sobre transformar cada vez mais o digital em parte natural da experiência de compra do brasileiro.
E, enquanto os mercados maduros avançam em um ritmo mais previsível, os emergentes mostram que a próxima grande onda de crescimento do comércio eletrônico global pode estar justamente onde a digitalização ainda está acontecendo em alta velocidade.







