Logística do futuro, conexão, tecnologia, pessoas e estratégia

Logística do futuro exige conexão entre tecnologia, pessoas e estratégia

Sumário

A transformação digital está mudando a maneira como empresas planejam, movimentam e entregam produtos. No entanto, investir em tecnologia, por si só, não garante uma cadeia de suprimentos mais eficiente. Esse é um dos principais desafios apontados por Priscilla Carvalho, diretora de Transformação Digital em Supply Chain da Leroy Merlin, ao discutir os caminhos da logística do futuro.

Segundo a executiva, muitas empresas acumulam iniciativas de inovação, ferramentas e projetos digitais, mas encontram dificuldades justamente na hora de conectar esses elementos. Em outras palavras, existe tecnologia disponível, porém nem sempre há integração entre pessoas, processos e estratégia de negócio.

A discussão ganha relevância porque a logística deixou de ser apenas uma área operacional. Atualmente, ela está diretamente ligada à experiência do consumidor, à rentabilidade e à capacidade de uma empresa responder rapidamente às mudanças do mercado.

A própria trajetória recente de Priscilla na Leroy Merlin reforça essa visão. Em uma publicação sobre o trabalho do time de Supply Chain Transformation, a executiva destacou a definição de metas, a escolha estruturada de projetos, a visão holística e a integração entre equipes. O grupo reúne cerca de 50 profissionais voltados a soluções para melhorar a cadeia de suprimentos e, consequentemente, a experiência dos clientes.

Tecnologia sem estratégia pode aumentar a complexidade

Nos últimos anos, empresas de diferentes setores passaram a adotar sistemas de gestão, inteligência artificial, automação, análise de dados, sensores, plataformas de planejamento e outras soluções digitais.

Entretanto, quanto maior o número de ferramentas, maior também pode ser a complexidade da operação.

Uma empresa pode, por exemplo, possuir um sistema para estoque, outro para transporte, uma plataforma de análise de dados e diferentes soluções de automação. Ainda assim, se essas ferramentas não conversarem entre si, a organização pode continuar enfrentando problemas semelhantes aos que existiam antes da digitalização.

Por isso, a transformação digital precisa partir de uma pergunta mais ampla: qual problema do negócio a tecnologia pretende resolver?

A partir dessa definição, torna-se possível escolher ferramentas, estabelecer prioridades e medir resultados.

Caso contrário, existe o risco de transformar inovação em uma coleção de projetos isolados.

O desafio está em conectar as iniciativas

A visão apresentada por Priscilla ajuda a explicar uma dificuldade comum nas grandes empresas: a existência de muitas iniciativas digitais que não necessariamente fazem parte de uma mesma estratégia.

Além disso, cada área pode possuir prioridades diferentes.

Enquanto a tecnologia busca modernizar sistemas, a logística precisa garantir produtividade. Ao mesmo tempo, o financeiro acompanha custos, o comercial observa vendas e o atendimento monitora a experiência do cliente.

Consequentemente, uma transformação realmente eficiente precisa conectar esses interesses.

Na Leroy Merlin, essa integração aparece na própria estrutura de Supply Chain Transformation. Em uma publicação, Priscilla descreveu o trabalho do time como uma construção baseada em metas, método de escolha de projetos, visão holística e integração entre equipes.

Portanto, o objetivo não é simplesmente digitalizar processos.

É fazer com que a tecnologia contribua para resultados concretos.

Pessoas continuam no centro da transformação

Embora a tecnologia esteja no centro da discussão sobre logística do futuro, as pessoas continuam sendo fundamentais.

Isso acontece porque sistemas podem automatizar tarefas, organizar informações e apoiar decisões. Entretanto, são profissionais que definem prioridades, interpretam cenários e fazem a tecnologia funcionar dentro da operação.

Além disso, uma nova ferramenta pode exigir mudanças na rotina das equipes.

Por isso, implementar tecnologia sem preparar as pessoas pode gerar resistência, baixa utilização ou até mesmo desperdício de investimento.

A própria Priscilla vem destacando a importância de uma cultura people centric nas discussões sobre transformação digital. Em participação no Logtech Day, evento promovido pela BluStone, ela participou de um painel dedicado à transformação digital em empresas tradicionais, ao lado de Débora Bittencourt e Natália Cassol. Entre os temas discutidos estavam maturidade digital, cultura centrada nas pessoas e os desafios encontrados durante processos de transformação.

Assim, a transformação digital precisa considerar tanto a tecnologia quanto quem irá utilizá-la.

A logística está deixando de ser apenas operacional

Durante muito tempo, logística esteve associada principalmente a transporte, estoque, armazenagem e distribuição.

Agora, entretanto, a área passou a ocupar uma posição muito mais estratégica.

Isso acontece porque o consumidor está cada vez mais exigente em relação a prazo, disponibilidade e qualidade da entrega. Consequentemente, uma falha na cadeia de suprimentos pode impactar diretamente a experiência do cliente.

Além disso, uma logística eficiente pode reduzir custos e melhorar margens.

Por outro lado, estoques mal dimensionados, processos manuais e informações fragmentadas podem gerar perdas, atrasos e excesso de capital parado.

Dessa forma, a transformação da logística tem impacto direto no desempenho do negócio.

Dados precisam virar decisão

Outro ponto fundamental nessa transformação é o uso dos dados.

Atualmente, empresas conseguem coletar informações sobre pedidos, estoques, transportes, fornecedores e comportamento dos consumidores em uma escala muito maior.

Porém, acumular dados não significa necessariamente tomar decisões melhores.

O verdadeiro valor aparece quando essas informações são organizadas, interpretadas e utilizadas para orientar ações.

Por exemplo, dados de demanda podem ajudar uma empresa a prever necessidades de estoque. Da mesma forma, informações sobre transporte podem indicar rotas mais eficientes ou pontos de maior risco de atraso.

Além disso, dados integrados podem permitir que diferentes áreas trabalhem com a mesma visão do negócio.

Assim, o desafio passa de “ter dados” para “transformar dados em decisões”.

Inteligência artificial amplia as possibilidades

Nesse cenário, a inteligência artificial surge como uma das tecnologias com maior potencial de transformação.

Na logística, sistemas de IA podem apoiar previsão de demanda, planejamento de estoque, roteirização, identificação de anomalias e análise de grandes volumes de informações.

No entanto, novamente, a tecnologia não funciona de maneira isolada.

Para que uma aplicação de inteligência artificial gere valor, a empresa precisa possuir dados confiáveis, processos estruturados e profissionais capazes de interpretar os resultados.

Além disso, é necessário definir claramente onde a tecnologia será utilizada.

Portanto, o futuro da logística não será determinado simplesmente por quem adotar mais inteligência artificial.

Provavelmente, será determinado por quem conseguir integrar IA, dados, processos e pessoas de maneira estratégica.

Integração de sistemas ganha importância

Outro desafio está relacionado aos sistemas utilizados pelas empresas.

Em operações grandes, é comum existir uma quantidade significativa de plataformas diferentes. ERP, WMS, TMS, sistemas de compras, ferramentas de planejamento e plataformas de e-commerce podem fazer parte da mesma cadeia.

Entretanto, quando essas soluções não estão integradas, informações importantes podem ficar espalhadas.

Consequentemente, equipes podem tomar decisões com base em dados diferentes.

A integração, portanto, torna-se uma das bases da logística digital.

Um exemplo disso aparece na própria jornada da Leroy Merlin. Priscilla compartilhou recentemente a experiência da companhia na migração para o SAP S/4HANA, destacando os desafios de estruturar a transformação e a importância da colaboração entre áreas de tecnologia e supply chain.

A empresa também vem utilizando sua estrutura de transformação para organizar projetos e buscar valor para o negócio, e não apenas concluir entregas tecnológicas.

Transformação não pode ser apenas uma sequência de projetos

Esse ponto é especialmente importante.

Quando uma empresa trata cada iniciativa digital como um projeto independente, pode acabar criando uma operação fragmentada.

Por outro lado, quando os projetos fazem parte de uma visão maior, eles podem se complementar.

Uma automação de estoque, por exemplo, pode gerar dados que serão utilizados por uma ferramenta de previsão de demanda. Ao mesmo tempo, essa previsão pode orientar compras e abastecimento. Depois, as informações podem ser utilizadas pelo transporte para planejar a distribuição.

Assim, diferentes tecnologias passam a funcionar como partes de uma mesma cadeia.

É justamente essa conexão que permite transformar iniciativas isoladas em uma estratégia digital.

A maturidade digital passa pela cultura

Além da tecnologia e dos sistemas, existe outro fator determinante: a cultura empresarial.

Uma organização pode possuir excelentes ferramentas e, ainda assim, não conseguir extrair todo o potencial delas.

Isso pode acontecer quando os profissionais não entendem o motivo da mudança, quando as equipes trabalham de maneira isolada ou quando não existe espaço para experimentação.

Por isso, empresas que desejam avançar na transformação digital precisam desenvolver uma cultura que incentive colaboração, aprendizado e adaptação.

No caso da Leroy Merlin, Priscilla também destacou em suas comunicações profissionais a importância da transformação construída de dentro para fora, com compartilhamento de conhecimento e trabalho integrado entre equipes.

Dessa maneira, a mudança deixa de ser apenas tecnológica.

Ela passa a ser organizacional.

O papel da liderança muda

A transformação digital também exige uma mudança na atuação dos líderes.

Em vez de simplesmente escolher uma nova ferramenta, a liderança precisa entender quais problemas devem ser resolvidos e quais resultados precisam ser alcançados.

Além disso, deve conectar diferentes áreas.

Isso significa aproximar tecnologia, operações, logística, finanças, comercial e experiência do cliente.

Consequentemente, o líder da transformação digital precisa ter uma visão ampla.

Não basta compreender tecnologia.

É necessário entender o negócio e, principalmente, as pessoas envolvidas na mudança.

Logística do futuro será mais integrada

A tendência é que a logística se torne cada vez mais conectada.

Estoques poderão conversar com sistemas de vendas. Transportes poderão receber informações em tempo real. Ferramentas de planejamento poderão utilizar inteligência artificial para antecipar demandas. Além disso, consumidores poderão acompanhar pedidos com maior precisão.

Entretanto, toda essa estrutura depende de integração.

Quanto mais sistemas forem adicionados, maior será a necessidade de estabelecer uma arquitetura capaz de conectar informações.

Por isso, o futuro não deve ser definido apenas pela quantidade de tecnologias utilizadas, mas pela capacidade de fazê-las trabalhar juntas.

A experiência do consumidor entra no centro

Outro aspecto importante é que a transformação da cadeia de suprimentos precisa chegar ao consumidor.

Afinal, melhorar um processo interno só faz sentido quando isso gera algum impacto positivo para o negócio ou para o cliente.

Uma logística mais inteligente pode resultar em entregas mais rápidas, maior disponibilidade de produtos, menos rupturas e melhor previsibilidade.

Consequentemente, a tecnologia aplicada ao supply chain pode se transformar em vantagem competitiva.

Essa conexão entre operação e experiência do consumidor aparece na própria estratégia do time de Supply Chain Transformation da Leroy Merlin, que trabalha com soluções voltadas à melhoria do supply e da experiência dos clientes.

O futuro exige menos silos

Um dos grandes obstáculos para a transformação digital é o trabalho em silos.

Quando cada área possui seus próprios objetivos, dados e ferramentas, torna-se mais difícil construir uma visão integrada.

Por isso, a logística do futuro tende a exigir maior colaboração.

Tecnologia precisa conversar com supply chain. Supply chain precisa conversar com comercial. Comercial precisa entender as limitações operacionais. E todas essas áreas precisam trabalhar com informações confiáveis.

Dessa maneira, decisões passam a ser tomadas considerando o impacto sobre toda a cadeia.

Não basta digitalizar processos antigos

Existe ainda outro risco: simplesmente transformar um processo manual em digital sem questionar se ele deveria existir daquela forma.

Por exemplo, uma empresa pode automatizar uma etapa desnecessária e, mesmo assim, continuar gastando recursos.

Portanto, antes de automatizar, é necessário revisar.

Antes de implementar uma plataforma, é importante entender o processo.

E, antes de investir em inteligência artificial, é fundamental verificar se existem dados suficientes e confiáveis.

Consequentemente, transformação digital também significa repensar a maneira como o trabalho é realizado.

O desafio é transformar tecnologia em valor

No fim, a principal questão para a logística do futuro não será simplesmente quais tecnologias estarão disponíveis.

A questão será como as empresas conseguirão transformar essas tecnologias em valor.

Isso envolve escolher prioridades, conectar sistemas, preparar pessoas, organizar dados e alinhar investimentos aos objetivos estratégicos.

Além disso, exige uma visão de longo prazo.

Projetos digitais podem produzir resultados rápidos, mas uma transformação consistente precisa ser construída continuamente.

A experiência compartilhada por Priscilla Carvalho mostra justamente essa necessidade de estruturar a transformação. Na Leroy Merlin, o time de Supply Chain Transformation trabalha com programas, metas, critérios para escolha de projetos e integração entre equipes.

Portanto, a tecnologia é uma ferramenta importante, mas não é o ponto final.

Uma nova lógica para o supply chain

A logística do futuro será marcada por maior automação, inteligência artificial, dados e integração. Contudo, esses elementos precisarão estar conectados a uma estratégia clara.

Além disso, as empresas terão de olhar para suas equipes como parte essencial da transformação.

Nesse sentido, a provocação de Priscilla Carvalho é relevante para um mercado que corre para adotar novas tecnologias, mas nem sempre consegue integrá-las.

A transformação digital não acontece quando uma empresa simplesmente compra uma nova plataforma.

Ela acontece quando tecnologia, pessoas e estratégia passam a trabalhar na mesma direção.

E isso muda completamente a maneira de pensar o supply chain.

No lugar de uma coleção de ferramentas, surge uma cadeia conectada.

No lugar de projetos isolados, aparecem programas alinhados a objetivos.

E, no lugar de decisões baseadas apenas em experiência, entram dados capazes de apoiar escolhas mais rápidas e precisas.

Por isso, a logística do futuro não será necessariamente aquela que possui mais tecnologia.

Será aquela que souber conectar tecnologia ao negócio, às pessoas e ao consumidor.