O império da Samsung que poucos conhecem

O império da Samsung que poucos conhecem

Sumário

Quando se fala em Samsung, a primeira imagem que provavelmente vem à cabeça é a de um smartphone Galaxy, uma televisão ou algum outro aparelho eletrônico. No entanto, essa percepção representa apenas uma parte de uma estrutura empresarial muito maior.

Na Coreia do Sul, a Samsung funciona como um dos maiores conglomerados empresariais do país, conhecido como chaebol. Em 2025, o grupo tinha 63 empresas afiliadas domésticas, sendo 17 companhias listadas e 46 não listadas.

Por isso, entender a Samsung apenas como uma fabricante de celulares é deixar de lado uma estrutura que atua em áreas como semicondutores, displays, construção, engenharia, baterias, biotecnologia, seguros, varejo e serviços financeiros.

Além disso, a estratégia do grupo ajuda a explicar como uma empresa sul-coreana conseguiu participar de diferentes etapas de cadeias produtivas globais. Enquanto algumas gigantes de tecnologia concentraram sua expansão em software, serviços digitais e plataformas, a Samsung avançou também sobre setores industriais considerados estratégicos.

Foundry fabrica chips para outras empresas

Um dos exemplos mais interessantes dessa diversificação está no mercado de semicondutores.

A Samsung Foundry atua como fabricante contratada de chips desenvolvidos por outras empresas. Isso significa que a Samsung pode produzir componentes que serão utilizados em produtos de companhias que, em determinadas categorias, são suas próprias concorrentes.

Um exemplo é a Qualcomm. A Samsung já fabricou diferentes gerações de processadores Snapdragon, incluindo o Snapdragon 8 Gen 1, produzido no processo de 4 nanômetros da Foundry.

Além disso, a Samsung também participou da fabricação das primeiras gerações dos chips Google Tensor. A linha Tensor foi desenvolvida pelo Google em parceria com a Samsung, enquanto a Samsung Foundry ficou responsável pela fabricação. Posteriormente, porém, o Google transferiu a produção do Tensor G5 para a TSMC.

Essa mudança mostra, inclusive, como o mercado de semicondutores é extremamente competitivo. Ainda assim, o histórico demonstra a dimensão da Samsung dentro da cadeia global de fabricação de chips.

Contrato com a Tesla reforça aposta em inteligência artificial

Mais recentemente, a Samsung encontrou outra oportunidade importante no mercado de inteligência artificial.

Em julho de 2025, a empresa anunciou um contrato de US$ 16,5 bilhões com a Tesla para fabricação de chips. O acordo, confirmado por Elon Musk, prevê produção na nova fábrica da Samsung em Taylor, no Texas, e está relacionado ao chip de próxima geração AI6 da Tesla. O contrato tem duração prevista até o fim de 2033.

O negócio é particularmente relevante porque amplia a presença em uma cadeia que envolve carros autônomos, robótica e infraestrutura de inteligência artificial.

Além disso, a fábrica de Taylor representa uma tentativa da Samsung de ampliar sua capacidade de fabricação avançada de semicondutores nos Estados Unidos.

Consequentemente, o acordo com a Tesla não deve ser observado apenas pelo valor financeiro. Ele também representa uma oportunidade estratégica para a Samsung fortalecer sua divisão de foundry e conquistar novos clientes.

A Samsung também está dentro do iPhone

Outro exemplo curioso aparece no mercado de telas.

Embora Samsung e Apple sejam concorrentes diretas no mercado de smartphones, empresas do grupo Samsung participam da cadeia de fornecimento da Apple.

A Samsung Display é uma das principais fabricantes globais de painéis OLED e fornece telas para produtos da Apple. A própria Samsung Display destaca sua posição de liderança na produção de displays OLED.

Além disso, a Apple utiliza fornecedores diferentes para seus painéis, incluindo Samsung Display, LG Display e BOE, dependendo do modelo e da geração. Portanto, não é correto dizer que todo iPhone utiliza uma tela fabricada pela Samsung.

Ainda assim, o exemplo revela uma característica importante do modelo empresarial sul-coreano: uma empresa pode competir diretamente com outra no produto final e, ao mesmo tempo, participar de sua cadeia de fornecimento.

Ou seja, a concorrência não impede necessariamente relações comerciais em outras etapas da indústria.

Samsung C&T ajudou a construir o Burj Khalifa

E a atuação do grupo vai muito além da tecnologia.

A Samsung C&T, braço de construção e comércio do grupo, participou da construção do Burj Khalifa, em Dubai, o edifício mais alto do mundo.

O projeto foi executado por um consórcio que envolveu Samsung C&T, BESIX e Arabtec, enquanto o desenvolvimento ficou associado à Emaar Properties.

Dessa forma, quando alguém olha para o Burj Khalifa, não está diante apenas de um símbolo da arquitetura de Dubai. Existe também uma conexão com a engenharia e a construção sul-coreanas.

Esse é um exemplo bastante representativo da diversificação da Samsung.

Engenharia e energia também fazem parte do grupo

A presença industrial aparece ainda em grandes projetos de infraestrutura energética.

Em abril de 2024, a Samsung E&A anunciou contratos de aproximadamente US$ 6 bilhões com a Saudi Aramco para o projeto de expansão da planta de gás de Fadhili, na Arábia Saudita. O objetivo é ampliar a capacidade de processamento da instalação de 2,5 bilhões para 3,8 bilhões de pés cúbicos de gás por dia.

Portanto, a atuação do grupo não está restrita à fabricação de equipamentos eletrônicos.

Na prática, empresas associadas à Samsung participam de projetos relacionados a energia, infraestrutura e engenharia pesada em diferentes mercados.

Baterias ampliam a presença na indústria automotiva

Outro setor estratégico é o de baterias.

A Samsung SDI atua na fabricação de baterias utilizadas em veículos elétricos e possui parcerias com grandes empresas automotivas.

Nos últimos anos, a companhia ampliou sua presença na América do Norte por meio de projetos com montadoras e parceiros industriais. Um exemplo é a parceria com a Stellantis para a construção de fábricas de baterias nos Estados Unidos, incluindo um investimento de US$ 3,2 bilhões em uma segunda unidade em Kokomo, Indiana.

Assim, a Samsung também participa de uma das principais transformações da indústria automotiva: a migração dos motores tradicionais para veículos elétricos.

E, novamente, a estratégia se repete. Em vez de depender de um único produto final, a companhia atua em uma etapa essencial da cadeia de produção.

Biotecnologia é outra frente de expansão

Talvez uma das áreas menos associadas à marca Samsung seja a biotecnologia.

A Samsung Biologics atua como uma empresa de desenvolvimento e fabricação contratada de medicamentos e produtos biológicos.

Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, a companhia firmou um acordo com a Moderna para realizar o processo de fill-finish da vacina mRNA-1273 em sua unidade de Incheon, na Coreia do Sul.

Segundo a própria Samsung Biologics, o acordo previa produção em larga escala, incluindo etapas de envase asséptico, rotulagem e embalagem. A expectativa inicial era produzir centenas de milhões de doses destinadas a mercados fora dos Estados Unidos.

Posteriormente, a vacina produzida pela Samsung Biologics recebeu autorização das autoridades sul-coreanas para distribuição no país e exportação.

Assim, uma empresa que muitos consumidores conhecem principalmente por smartphones também passou a participar da cadeia global de produção farmacêutica.

O modelo Samsung é diferente das gigantes de tecnologia

Essa diversidade ajuda a entender uma característica particular da Samsung.

Muitas empresas de tecnologia cresceram principalmente por meio de produtos digitais, softwares, plataformas e serviços. A Samsung, por outro lado, construiu uma estrutura muito mais horizontal.

Em vez de avançar apenas para camadas superiores de software, o grupo expandiu sua presença para diferentes etapas da indústria.

Semicondutores, displays, baterias, construção, engenharia e biotecnologia são exemplos dessa estratégia.

Além disso, existe uma vantagem importante nesse modelo: diferentes negócios podem participar de mercados que apresentam ciclos econômicos distintos.

Quando determinado setor enfrenta dificuldades, outro pode apresentar crescimento.

Entretanto, isso não significa que o conglomerado esteja protegido de riscos. Pelo contrário, cada indústria possui concorrentes, investimentos e desafios próprios.

Uma empresa que está por trás de outras marcas

Talvez essa seja a característica mais curiosa do modelo Samsung.

O consumidor pode comprar um smartphone de uma marca concorrente, utilizar uma tela produzida pela Samsung, ter um chip fabricado por uma unidade Samsung e, ao mesmo tempo, não perceber nenhuma dessas conexões.

Isso acontece porque grande parte da atuação do grupo ocorre nos bastidores das cadeias produtivas.

Enquanto a Samsung Electronics aparece diretamente diante do consumidor, outras empresas do grupo atuam principalmente no fornecimento de componentes, fabricação, engenharia e serviços especializados.

Consequentemente, a marca representa apenas uma parte da dimensão econômica do conglomerado.

Diversificação foi parte da estratégia de crescimento

A trajetória ajuda a entender como a Samsung se tornou tão diversificada.

A empresa não construiu seu crescimento apenas tentando vender mais smartphones ou televisores. Ao longo das décadas, o grupo desenvolveu negócios em diferentes setores considerados importantes para a industrialização e para a economia sul-coreana.

Por isso, sua presença atual combina indústria de alta tecnologia com setores tradicionais.

Essa característica também diferencia o conglomerado de empresas ocidentais que, em muitos casos, concentraram sua expansão em software, publicidade digital, serviços em nuvem ou plataformas.

A Samsung, por sua vez, manteve uma forte presença na fabricação.

O peso econômico da Samsung exige cuidado na comparação com o PIB

É comum encontrar na internet afirmações de que a Samsung representa determinada parcela do PIB da Coreia do Sul. Entretanto, essa comparação precisa ser feita com cautela.

Receita de uma empresa e PIB de um país não são a mesma coisa. O PIB mede o valor agregado produzido em uma economia, enquanto a receita representa o valor das vendas de uma empresa.

Além disso, uma parcela significativa das receitas das grandes empresas sul-coreanas vem de operações internacionais.

Por isso, dizer simplesmente que a Samsung “representa X% do PIB sul-coreano” pode gerar uma interpretação econômica equivocada.

Ainda assim, o peso do conglomerado na economia e nas exportações sul-coreanas é significativo, especialmente considerando sua extensa rede de empresas, fornecedores e operações.

Samsung é mais um ecossistema industrial do que uma marca de celulares

No fim, a principal conclusão é simples: a Samsung é muito maior do que os celulares Galaxy.

A companhia está presente em segmentos que vão dos semicondutores à biotecnologia, passando por telas, baterias, construção e engenharia.

Além disso, alguns dos negócios mais estratégicos do grupo acontecem longe dos olhos do consumidor.

O contrato de US$ 16,5 bilhões com a Tesla, por exemplo, mostra como a Samsung busca espaço na próxima geração da inteligência artificial. Já sua atuação em displays, baterias e semicondutores demonstra a importância da fabricação física para a economia digital.

Portanto, enquanto o consumidor enxerga principalmente smartphones, televisores e outros eletrônicos, existe uma estrutura industrial muito maior funcionando por trás da marca.

E é justamente essa combinação entre tecnologia, fabricação e indústria pesada que ajuda a explicar por que a Samsung ocupa uma posição tão particular no cenário empresarial global.